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Cinematologia

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As taras de Tarantino

tumblr_majqlmcDJ11r6rsjpo1_500.pngO filho de Connie Zastoupil tinha tudo para ser um falhado na vida. A norte-americana, auxiliar de acção médica, foi abandonada pelo marido quando estava grávida. Na escolha, o filho, Quentin Jerome, não era brilhante – e além disso sofria de dislexia. Felizmente, dava-se bem com o padrasto, Curt Zastoupil, um músico de segunda linha que o criou desde os 2 anos. Só que depois tornou-se um adolescente problemático, que passava horas a ver televisão.


Abandonou a escola no 9.º ano, com 16 anos. Para ajudar a família, começou a fazer uns biscates como telefonista e depois arranjou emprego como arrumador no Pussycat Theater, o cinema pornográfico da pequena cidade de Torrence, na Califórnia. Foi aí, nesse lugar pouco recomendável, que teve a ideia de um dia fazer filmes. Do pai, Tony, diz que não guardou boas memórias – apenas ficou com o apelido que o tornou famoso: Tarantino. 

Antes de se tornar uma estrela em Hollywood, o realizador trabalhou ainda como empregado de uma loja de aluguer de vídeos – a Video Archives, em Manhattan Beach, na Califórnia. Começou em 1984, e recebia apenas o salário mínimo, mas durante cinco anos devorou milhares de filmes, desde comédias americanas até western spaghetti, passando por filmes europeus da nouvelle vague e por obras obscuras de wuxia (artes marciais do Extremo Oriente). 

Quem já trabalhou com Quentin Tarantino diz que ele é uma verdadeira enciclopédia viva de cinema, um obcecado – e uma das suas tiradas célebres refere-se até a esta obsessão: “Eu nunca frequentei a escola de cinema. Eu frequentei o cinema.” 

Diz mesmo que roubou quase todas as ideias dos seus filmes a clássicos que viu nessa época. Alguns dos seus fetiches pessoais tornaram-se imagens de marca: apresenta sempre a chamada mexican standoff, uma cena em que, num grupo, as personagens apontam as armas uns aos outros. Filma sempre um plano com a câmara dentro de um porta-bagagens de um carro e mostra sempre grandes planos de pés femininos. Mas há mais obsessões pessoais nos filmes de Tarantino: todos os protagonistas conduzem carros clássicos americanos (Chevrolet e Cadillac), os restaurantes Big Kahuna Burgers aparecem em várias cenas, há sempre um anúncio aos cigarros Red Apple, a maioria das personagens principais fuma e há sempre uma cena em que a câmara segue uma personagem durante um longo período de tempo sem interrupção. Algumas destas marcas são inventadas pela imaginação delirante do realizador.

Mas, no princípio, o que Tarantino queria mesmo era ser actor. Chegou a ter aulas de representação com James Best, um dos actores da série ‘Os Três Duques’. Talvez por isso faça questão de ter sempre pequenos papéis em todos os filmes que realiza ou para que escreve o argumento. Mesmo antes de se tornar célebre, ainda chegou a representar o papel de imitador de Elvis Presley na série ‘Golden Girls’, da NBC (1988), com um salário de 700 dólares. 

Foi também na loja de vídeo que se tornou amigo de Roger Avary, um argumentista co-autor das histórias dos seus primeiros filmes. Um dos clientes regulares era o produtor John Langley. Impressionado pelos seus esmagadores conhecimentos de história do cinema, decidiu contratá-lo como assistente de um vídeo de exercício físico de Dolph Lundgren, uma das estrelas musculadas da época (ficou famoso com o papel de pugilista russo em ‘Rocky IV’).

 

O filme teria sido mais um dos biscates de Tarantino, sem história relevante, mas acontece que o trabalho lhe permitiu conhecer Lawrence Bender, um executivo da Cinetel Production que o incentivou a escrever a história de ‘Cães Danados’ (‘Reservoir Dogs’, 1992). Destinado a ser uma produção quase experimental de baixo orçamento (35 mil dólares), o filme ganhou outra dimensão quando Harvey Keitel, amigo da mulher de Bender, leu o guião por acaso e decidiu investir 1 milhão de euros e ainda ser o protagonista. 

O êxito permitiu-lhe fazer o filme que o transformou numa estrela: ‘Pulp Fiction’ (1994). Aqui exibe mais alguns dos seus fetiches – armas, bares, malas e roupa dos anos 50. Outras das suas marcas são as personagens inter-raciais – a mais célebre talvez seja Ishii (interpretada por Lucy Lyu) em ‘Kill Bill: vol. 1’ (2003), uma lutadora meio japonesa, meio sino-americana. Estas criações serão um reflexo da própria história de Tarantino: a mãe era descendente de irlandeses e índios cherokee e o pai tinha raízes italianas. O realizador já chegou a afirmar que todos os seus filmes são autobiográficos e revelam muitas das suas manias. Mais uma: cereais de pequeno-almoço – ele diverte-se mesmo a criar marcas fictícias como Fruit Brute, em ‘Reservoir Dogs’, ou Kaboom, em ‘Kill Bill: vol. 2’ (2004).

Ganhou muito dinheiro, o que lhe permitiu alimentar luxos extravagantes: Tarantino é um coleccionador compulsivo de discos de vinil antigos e tem várias salas da sua mansão na Califórnia forradas com eles. “Adoro os ruídos e o som com imperfeições dos discos antigos”, confessou ao ‘The Times’. A paixão pela música foi-lhe transmitida pelo padrasto. O realizador até comprou uma rara jukeboxoriginal, a que chama Amy, que inclui as suas músicas favoritas (a banda sonora é um dos detalhes dos filmes que acompanha com mais rigor e confessa que é uma das tarefas com que perde mais tempo). 

Outro fascínio, por mulheres bonitas e determinadas, ultrapassa os filmes e vê-se na atribulada vida amorosa. Tarantino começou por namorar com a realizadora Allison Anders, depois foram-lhe apontadas ligações tórridas com as actrizes Margaret Cho e Mira Sorvino [na foto, à esquerda]. Também se envolveu com Sofia Coppola [na foto, à direita], mas nunca se livrou dos rumores sobre uma velha paixão: a actriz Uma Thurman, que entrou em vários dos seus filmes. Ele sempre negou, dizendo que é uma relação platónica. “A Uma é a minha musa.”

 

Também são frequentes as referências à Holanda, onde viveu durante vários meses – em ‘Pulp Fiction’, o assassino interpretado por Samuel L. Jackson faz um discurso sobre as batatas fritas com maionese de Amesterdão e sobre as mortalhas Drum usadas nos típicos bares de canábis. E vários jornais norte-americanos já escreveram que é na cidade holandesa que Tarantino se refugia quando está com crises de inspiração – para fumar erva e vasculhar em armazéns obscuros e clubes de striptease em busca de novas ideias. O realizador nunca confirmou as alegações mas nos seus filmes há muitos cenários do género. 

Também foi na cidade holandesa que surgiu a ideia de ‘Sacanas sem Lei – Inglorious Bastards’, no original –, um filme com um olhar revolucionário sobre a Segunda Guerra Mundial (ver caixa). Tarantino confessou que demorou mais de três anos a escrever o argumento e que acabou por interromper o trabalho porque não encontrava o final adequado. Fez “um intervalo”, escavou na sua imensa colecção de filmes de kung-fu e escreveu o argumento de ‘Kill Bill’, depois de ter sido desafiado por Uma Thurman a contar a história de uma noiva vingativa. 

A seguir, a pedido do seu melhor amigo, Robert Rodriguez, realizou uma das histórias de ‘Sin City’ por 1 dólar (retribuindo um favor antigo quando Rodriguez realizou ‘El Mariachi’ a seu pedido). Seguiu-se ‘À Prova de Morte’. E só no ano passado retomou o projecto de ‘Sacanas sem Lei.’ O filme foi apresentado em Cannes (...)gerando polémica devido aos níveis de violência.

Luís Silvestre em www.sabado.pt