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Cinematologia

Repositorium de todos os filmes que vi

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1993-Kika by Pedro Almodóvar

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Sinopse:

Trata-se provavelmente do filme maldito de Pedro Almodóvar, da sua obra-prima incompreendida. Maquilhadoras de cadáveres, escritores psicopatas, vedetas televisivas vestidas em cabedal para apresentarem "reality shows" ou estrelas pornográficas débeis mentais cruzam-se com uma fúria de folhetim num "sui generis" tratado acerca das glórias e decadências do "voyeurismo". O cineasta espanhol filma estas criaturas mutantes através de prateleiras e aberturas nas paredes, organizando um gigantesco mosaico de personagens, perversões e cores. Mas a euforia "trash" de "Kika", que surge como revisitação dos primeiros filmes do cineasta, nunca escamoteia uma profunda tristeza e amargura de um cineasta que se sentiu demasiado exposto às expectativas criadas e à curiosidade alheia - esta é a resposta à altura, concentrado de corrosão.

cinecartaz.publico.pt

 

Crítica:

Comédia neurótica, sátira social, melodrama familiar e "thriller" negro. Tudo isto é "Kika", a despedida, delirante e amargurada, de Pedro Almodóvar às provocações "kitsch" da primeira fase da sua obra.

Um filme que surgiu numa época complicada para o realizador espanhol, a braços com as contingências da fama (nomeadamente a invasão da esfera íntima) e as acusações de cineasta em estagnação criativa, preso a um exibicionismo gratuito, fascinado pelo seu próprio mito de "provocador".

Obra de transição, momento decisivo na carreira de Almodóvar, "enfant térrible" à procura da serenidade dos "mestres".

Quando olhamos para o filme, podemos falar então numa carta de despedida. De Almodóvar em relação à primeira fase da sua obra, construída sob o signo do choque e da provocação, as armas próprias de quem conquistou por direito próprio o posto de herói da "Movida", a revolução da contra-cultura que, no dealbar da Espanha pós-franquista, surgiu como reacção ao fim da ditadura. Essa sensação de "última vez" está, de resto, bem patente na acumulação de características e marcas típicas do cinema do realizador.

E se este "best of" do "estilo Almodóvar" parece de facto apontar para o anúncio de fim de um ciclo, essa ideia sai ainda mais reforçada pelo que "Kika" traz de novo ao universo do realizador: ao invés da voragem efusiva, em jeito de celebração da liberdade, o delírio deixa entrever amargura e gravidade. Por isso, através de sucessivos golpes de rins, o filme vai avançando para terrenos progressivamente mais sombrios: comédia neurótica, sátira ao fascínio dos "media" pela violência, melodrama familiar e "thriller" negro

E também por isso, a explosão de cores "pop" esconde agora o cinzentismo do desencanto, com Almodóvar a oferecer-nos uma galeria de seres desesperados, prisioneiros das suas fraquezas e desejos, encerrados num isolamento que impossibilita a comunicação.

Vasco T. Menezes-www.publico.pt

 

Cinemantário:

Um filme caótico, quase incompreensível, como se as cenas fossem arrancadas de um livro e atiradas ao ar.